quinta-feira, maio 28

Toca a somar


Confesso que nutro um enorme respeito por aquelas apresentadoras dos programas de final da noite que passam na SIC e na TVI, em que os concorrentes fazem fila para telefonar e gritar, com entusiasmo - apesar de serem 4h20 da manhã e no fundo sentirem que o que era fixe era ter uma vida - a palavra "chourição", cuidadosamente escondida como estava numa sopa de letras.

É que a menina não pára de falar, e há que dar devido crédito a isso. Não é toda a gente que consegue passar ali duas horas a dizer, basicamente, "temos 100 euros para lhe oferecer hoje! Só tem de ligar o 696969 e ser um dos primeiros. Do que está à espera? São 100 euros! Ligue 696969! 100 euros! Ainda não ligou? 100 euros!", e fazê-lo indefinidamente, tipo feirante, sempre de uma forma original e inovadora.

Por esta altura, admitindo que o seu poder de persuasão acaba eventualmente por resultar, um ser humano normal pôr-se-ia a fazer contas à vida. Quanto mais um bêbado: "fuoda-se, se eu tivesse 100 euros ia já à bomba de gasolina e comprava 5 garrafas de whiskey, caralho!". 100 euros: a puta da fortuna. África, não conhecerás mais a fome. Ainda assim, hipnotizados pelo discurso da fêmea, a mentecapção tem início. Um gajo liga. Gastou 60 centimos para descobrir que, afinal, era preciso ser o 25º a ligar para ter entrado em directo, e poder gritar com entusiasmo "pepino!", sem se sentir minimamente ridículo com o acto. Ao invés, de forma lacónica, é apenas audível na mensagem gravada: "foi o 24º telespectador a ligar. tente de novo". A partir desse momento, um tipo:

a) tira o som à televisão e bate uma (bem vistas as coisas, só custou 60 centimos);

b) mata a mãe, que dormia sossegadamente no quarto ao lado e não suspeitava ser culpada de ter criado um imbecil;

c) entra em coma alcoólico.

Ora, o imprevisto - e o que é verdadeiramente estimulante neste tipo de programa - é a imprevisibilidade da hipótese "c" acontecer mais cedo, ou seja, antes mesmo de um gajo conseguir efectivamente realizar a chamada. Especialmente se acontecer a toda a gente ao mesmo tempo, o que se torna extremamente divertido, pois a apresentadora vê-se obrigada a encher chouriços e inventar formas criativas de fazer render o peixe até que caia a chamada redentora: passados 20 minutos disto, ainda não tinha caído, e constatando assim que o mais provável era que os 2 telespectadores que estavam a assistir ao programa naquele momento tivessem já falecido, proferiu, em jeito de desabafo e de auto-reclamação da sua individualidade, a seguinte frase: "olhe, se não quiser, não ligue", sendo imediatamente repreendida ao auricular pelo realizador brasileiro: "Não ligue não, porra! Diga p'ra ligar!", ao que ela, como artista, deve ter pensado: "Foda-se, ninguém respeita a criatividade neste país", atirando depois para a câmara, com um sorriso, "Não ligue, não; aliás, ligue! Ligue já! O que é que eu estava a dizer? Ligue! Ligue já! Não me ligue é a mim, ahahaha!", mantendo depois um sorriso notoriamente vazio durante 20 segundos e protagonizando, talvez, um dos momentos mais awkwards do panorama televisivo nacional.

Nesse preciso momento, poderia ter-lhe dado um qualquer colapso cardíaco e ter caído ali redonda no chão, que quase poderíamos jurar que de imediato seria removida do estúdio por um braço mecânico gigante e imediatamente substituída pela próxima tipa na linha do casting, que por acaso se encontrava ali à mão para qualquer eventualidade, tipo banco de suplentes, e se punha imediatamente a falar aproveitando como âncora os sons do sufoco engasgado da falecida, dizendo qualquer coisa do género, "vê? isto é o que acontece quando você não liga! para além de perder 100 euros mata as mulas que aqui pomos a entretê-lo, por isso veja lá se liga para não ser aqui empalada em directo também",

e todos os seus dentes de cavalo reluziriam em simultâneo, a sopa de letras mais o "chourição" lá continuariam à sua espera e durante todos estes acontecimentos o cabrão do realizador continuaria a fazer os seus close-ups à David Lynch sem fazer caso do que quer que fosse, ora fazendo zooms criativos ao cadáver da outra a ser removido, ora focando-se embaraçosamente na palavra "foder" que, sem querer, a puta da sopa de letras tinha formado sem que o coitado que cria aquela merda 5 minutos antes do programa começar tivesse reparado, e tudo isto sem que a emissão parasse ou fosse interrompida por um único segundo.

É sempre a somar!

3 comentários:

Anónimo disse...

O que aconteceria se alguém ligasse para lá e dissesse, com entusiasmo: "Foder!"

Anónimo disse...

?

Anónimo disse...

Podíamos ter dois tipos de cenários (os 2 que me ocorrem agora), ou até mais.

A apresentadora tenta desesperadamente ocultar o sucedido. Começa com uma gargalhada tímida que vai aumentando de volume até chegar à famosa e única gargalhada histérica enquanto, ao mesmo tempo, vai dizendo um "ahaahhahaha ah, seu brincalhão! ahahahahhahhahah Essa foi boa e não está longe, ahahah não está longe, mas ahahahahaha ainda não é desta que ganha os 100€!"

Mas também pode piar de felicidade, rebolar no chão, bater palmas (dizendo “Não acertou, mas bravo, bravooo, bravíssimo!”) e dar dois saltos mortais por haver, afinal, alguém neste país que respeite a criatividade.

E no final, o gajo pensa: “fuoda-se!!! Puta q pariu! Eu queria aquele guito para cumprar + cervejas e esta gaja fodeu-me o esquema, fuoda-se!"